domingo, 30 de outubro de 2011

Por que crêr.

Tem muita coisa acontecendo na minha vida. Coisas que me desanimam até pra escrever, mas eu vou tentar. Isso me faz bem. Pra começar, eu queria dizer que eu fui criado numa família cristã protestante, mas logo na pré adolescência eu cuspi tudo o que me ensinaram. Eu me tornei ateu. Por que eu não via deus num mundo onde há guerras, destruição, fome, preconceito. Eu não via sentido nuns livros arcaicos que se contradiziam. Eu não via credibilidade na teoria da salvação. Eu não via espaço pra fantasia num mundo real. Eu contemplava a natureza e não via deus. Eu via evolução, eu via progresso. Mas, principalmente, eu não via senso de justiça no julgamento divino. E isso era o que mais me incomodava. Se ele existisse, para ser salvo, eu devia viver de acordo com as regras dele, então eu seria salvo. Pra quê? Pra continuar vivendo de acordo com as regras dele, só que em um "paraíso", que pra mim, não passava de apelação intencional de tudo o que o ser humano sonhador sempre desejou. A filosofia cristã é bonita. Eu sonho em um dia abraçar meu tio, que já se foi. Eu sonho em um dia ver meu avô e olhar nos olhos dele e perceber que ele não sente dor. Eu tenho minhas vontades de viver num mundo onde eu não precise me trancar pra me proteger. E não sou só eu. São desejos comuns pra todos nós. A felicidade, a paz. E é isso o que o cristianismo propõe. E pra mim, era questão de marketing. Muito tem planejado, ao longo dos séculos, pra manipular a mentalidade e a genialidade do povo, fazer morrer nossa capacidade natural do questionamento e da evolução.
Até hoje, aceitar Deus é algo difícil. Mas eu aceitei. Aceitei por que vi o ateísmo se propagando de forma errada, assim como ele chegou até mim. Da mesma forma que aconteceu durante toda a história da existência humana, principalmente, devo citar, nas décadas passadas, onde os valores e ideais humanos passaram por uma evolução significativa e nos abriu os olhos para uma realidade que antes não estava ao nosso alcance. Veja bem, eu falei sobre alcance, e não sobre existência. Essa realidade sempre existiu, mas não tinha espaço para sobreviver num mundo repleto de conceitos morais abrangentes e restringentes.
Os casais sempre desejaram se separar. Mas isso não era permitido moralmente a vinte anos atrás como é hoje. Os homossexuais sempre existiram. Mas a cinquenta anos atrás, declarar-se um era um escândalo que poderia gerar (e gerava) escárnio e antipatia social. Declarar-se como homossexual, terminar um casamento por um motivo "fútil" ou até mesmo ir contra os preceitos "divinos" que a igreja ensinava era assinar e registrar sua stigma perante a sociedade. Assim, vivíamos reprimidos, com medo de nossos próprios impulsos, desejos, e como eles seriam vistos pela massa social.
Como eu disse, com o tempo, esses fatores sociais predominantes foram sendo abolidos, e a aceitação mútua do ser humano como livre para realizar suas escolhas passou a ser o novo bordão da contemporaneidade. Hoje, aberração é você não aceitar um homossexual, inclusive aos olhos da lei. Impensável é manter um casamento onde não haja felicidade. Os tempos mudaram. E a religião mudou. Não é sua obrigação seguir as crenças de sua família. Você não precisa mais acatar ordens de um padre. Você se tornou livre para crer ou não em uma força superior, da forma que quiser. A liberdade tomou proporções dominantes na razão social. Agora, permitam-me fazer uma analogia: Quando eu era criança, eu desejei muito um brinquedo. Um Buzz Lightyear que tinha os mesmos movimentos e acessórios que o personagem do filme Toy Story, da Pixar Studios. Eu ia para o shopping e ficava ali, com a caixa do boneco nas mãos, emocionado. Eu o desejava. Mas era muito, muito caro. E meus pais não tinham tanto dinheiro pra gastar com um boneco pra uma criança. Não vem ao caso como, mas depois de algum tempo, muito desejo e muito esforço depois, eu consegui compra-lo. A primeira sensação ao tira-lo da embalagem foi o cuidado: Posso quebra-lo, e ele é importante demais para mim. Depois, veio a realidade: "Ele é meu! Finalmente, ele é meu!" e aproveitei ao máximo, levava-o para todos os lugares, colocava-o em todas as brincadeiras, exibia-o para todos os meus amigos. Mas o boneco era sofisticado demais, pesado demais, não podia ir na água por causa de seu mecanismo elétrico, nem na terra, pelo mesmo motivo. Não podia bate-lo com força, e seus movimentos dos membros era limitado. Não era agradável. Eu não o valorizava por gosto, mas por necessidade. Depois de tanto esforço para conseguir, eu precisava fazer-me acreditar que aquilo havia valido a pena, que eu estava realmente sobre o domínio dele.
A sociedade tem feito a mesma coisa com suas conquistas libertárias. A causa homossexual nunca foi tão defendida, mas mesmo assim, o preconceito existe, e existe numa escala consideravelmente alta. Todo ano, milhares de homossexuais e simpatizantes se reúnem para comemorar a liberdade e hostilizar o preconceito. A lógica dessa mega reunião seria a realização de projetos sociais em prol da aceitação mútua do homossexualismo como parte inerente da humanidade de seus representantes, natural. Realizações de conscientização de que o homossexual é tão humano e tão competente quanto qualquer outro, e que, por isso, devem ter todos os direitos que temos: O de ser como são, de realizar o que desejam, de amar, procriar, construir lares de sua forma. Com o tempo, a ideia seria difundida de forma clara e objetiva. Mas não é isso o que acontece nos mega eventos homossexuais. O que vemos é uma banalização da sexualidade, festa, comemoração, agito, música, tudo muito alegre, mas que socialmente, não trás resultado nenhum para o público alvo que ainda não foi alcançado. A classe homossexual ainda está tirando o brinquedo da caixa. Ainda quer esfregar na cara de todo mundo que agora, o brinquedo tão desejado é deles. A ânsia pela liberdade e a cegueira pela diversão. Isso não é um julgamento, é uma análise. O mesmo acontece com o casamento. Pessoas precisam tanto provar para si próprias que agora são capazes de se separar quando quiserem, que o fazem de maneira fútil e desenfreada. Esquecemo-nos que a liberdade deve sempre vir acompanhada da responsabilidade. E os preceitos religiosos também estão na mesma situação.
Quando percebi que havia me tornado ateu pelo simples fato de poder se-lo, e ter uma necessidade imensa de alimentar em mim a credibilidade que tinha esse poder de decisão, inventei desculpas para sustentar essa ideia. Vomitar tudo o que me foi ensinado foi libertador. E irresponsável. O que precisamos não é liberdade para sermos o que desejarmos, mas ter opções de escolha e espaço para escolher a que melhor nos convém. E isso não significa, de maneira nenhuma, ser contra os preceitos tradicionais.
Foi quando eu olhei pra trás. Olhei pra trás e vi o cristianismo. E analisei-o, com meus próprios olhos. E estudei-o de uma maneira como eu ainda não havia feito, de uma maneira sincera, e não influenciada por meus pais. E procurei provas arqueológicas que sustentassem a visão bíblica dos fatos. E encontrei-as. E quando aceitei que nunca estaria a par de nenhuma verdade absoluta, cabia a mim suprir os vácuos de meus conhecimentos com fé. Fé em algo que fazia sentido para mim, e não pra minha ilusão libertária.
Como eu disse, até hoje é difícil aceitar Deus para mim. Eu ainda sou crítico demais, eu ainda sou cético demais. Mas eu tenho consciência de que eu não sou cristão por palavras. Afinal, as palavras que ouvi só me fizeram descrer. Ninguém é cristão verdadeiro somente por palavras. Você só se torna cristão verdadeiro depois de uma experiência única e pessoal com aquilo que você chama de Deus. E essa experiência sim, está dentro do conceito real de liberdade: Você não vai vive-la se não se permitir viver.
Esse texto não é um apelo religioso. É um texto de gratidão e um exercício de humildade. Quando as coisas ficam tão complexas ao ponto de eu não saber pra onde ir, é sempre bom aceitar que existe alguém maior para me dar a mão.
Obrigado, Deus, por não me fazer tão grande como eu costumo pensar ser.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Conhece-te a ti mesmo

Muitas citações culturais da Grécia antiga marcaram e influenciaram a história, a filosofia e os próprios princípios de vida durante séculos a fio. A escola de pensamento surgiu lá, e seguiu-se, baseando-se principalmente nas idéias de seus principais pensadores, toda a estrutura da filosofia, até os tempos modernos e contemporâneos. Porém, talvez a mais conhecida parte dessa herança seja a famosa inscrição no pátio dos oráculos da cidade de Delfos. Os oráculos eram conhecidos por possuir um saber acima da compreensão humana. Podiam eles entrar em contato direto com os deuses e suas vontades. Com sua sabedoria, influenciavam até mesmo as decisões políticas mais importantes da época; Porém sua contribuição foi muito além desses princípios metafísicos ao quais se baseavam. Até o mais leigo dos estudantes provavelmente já se deparou com a frase “Conhece-te a ti mesmo”, citação que simplificava e mesmo assim, mantém a essência de toda a doutrina em que os oráculos se baseavam. “é o princípio de toda a sabedoria” – Ela se completava. Tão profundo quanto qualquer ensinamento metafísico que os oráculos podiam oferecer, a frase está sobrecarregada de sublimes ensinamentos, espelhando desde a filosofia platônica até mesmo até a angústia existencialista, de tamanha sua abordagem sobre a existência e nossa capacidade de sermos, como seres pensantes, conhecedores do mundo.
Angústia porque, ora, de todas as indefinições do ser humano, de todas as crises que inevitavelmente passará, durante o correr de seus anos, sejam financeiras, familiares, profissionais, talvez a maior, que abrange o mais extenso território nas crises humanas, seja a existencial.
Nascemos e não muito posteriormente, nos entendemos como humanos e, com isso, partimos a inevitável busca pelo passado, pelo futuro, pelo presente. De onde viemos? Para onde vamos? Por que estamos realmente aqui? Todas essas perguntas podem facilmente ser reescritas através de uma, apenas: Quem somos nós? Estamos presos em nossa essência humana, tão distantes dessa resposta que, se nem somos capazes de nos conhecer, quem dirá conhecer o mundo? E se os oráculos de Delfos consideravam realmente que o autoconhecimento é apenas o princípio da sabedoria, e esse mesmo princípio se mostra a nós como um conceito tão utópico, tão inalcançável que jamais fomos capaz de transpô-lo, estamos então presos dentro de nossa própria essência, nos limitando a permanecer indeterminadamente fracassados no primeiro degrau da longa escada da sabedoria. Talvez a fenomenologia nos explique: Antes de compreendermos a coisa em si, temos de sê-la. Porém mesmo sendo-nos, a coisa em si permanece inalcançável. Sócrates representava todo esse exercício muito bem ao afirmar a não menos conhecida citação: “Só sei que nada sei”. Tomo liberdade para modificar duas letras apenas, e torná-la mais presente na nossa dissertação: “Só sei que nada sou”. Nada tenho sobre mim a não ser que existo, e posterior a isso, apenas tenho de plausível o que criei.
Inventamos-nos o que não somos para suprimir o vazio da ignorância a cerca de nós mesmos. Sou apenas minha mais complexa criação, dentre tantas outras mentiras.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Tabula rasa





Como alguns sabem, começei a pouco tempo um estágio no setor educacional público de minha cidade. É um trabalho um tanto desafiador, pois permaneço sempre com crianças de, em geral, cinco anos ou menos, onde poucas tem uma estrutura familiar suficientemente boa como apoio, e isso gera conflitos pessoais em indivíduos tão pequenos, e quando digo conflitos pessoais, digo, realmente, conflitos visíveis a qualquer um que se habilite a conviver, nem que seja apenas algumas horas, na presença deles.
Acredito que essa experiência com crianças era algo que me faltava, e isso com certeza me trará (apesar da exaustão que isso, em geral, causa) bons frutos na minha carreira profissional, mesmo que minha área de interesse dentro da psicologia não seja, exatamente, a psicopedagogia, nem nada relacionado com as crianças, em geral. Mas enfim, isso não vem ao caso.

Estar novamente presente no sistema de ensino infantil me fez lembrar que, a mais ou menos quatorze anos, eu é quem estava lá, presente. O sistema de ensinamento e aprendizagem praticamente continua o mesmo que vi em minha época, com poucas, realmente poucas diferenças notáveis.
Isso me fez refletir o que acontece com o sistema educacional em plano nacional, e por que, apesar de que a educação ser uma área governamental muito bem comentada, e que planos e planos são feitos por lideres políticos para melhorar a qualidade da mesma, ela ainda assim vem apresentando, ano após ano, críticas de todos os tipos e tamanhos.

O título do texto se chama "tabula rasa", em latim, significa "folha em branco". É uma citação da filosofia empirista, que vem muito a calhar com o que pretendo expor.

A filosofia empirista consiste em acreditar, basicamente, que todo o conhecimento que o ser humano adquire, através dos anos de vida, são mediantes a sua experiência com o objeto externo, não existe conhecimento nativo, nada que você carregue dentro de você, e que traga desde o ventre da mãe. Isso limita o ser humano a nascer sem nenhum tipo de conhecimento, nenhum tipo de impressão ou simbolo. O conhecimento é gerado conforme vamos convivendo e aprendendo, recolhendo informações de qualquer coisa que faça parte do nosso ciclo de vida.

John Locke foi um dos principais representantes da corrente filosófica empirista. Ele descreve o conceito de tabula rasa como representante de como todo o ser humano nasce. Raso, vazio, pronto para receber as informações que, a partir dai, construirão seu conhecer a cerca do mundo.

Na teoria psicanalítica, assim que o bebê nasce, ele começaria a procurar por símbolos para satisfazer suas necessidades. Poderíamos, bem resumidamente, incluir os chamados "arquétipos", da psicologia analítica, descritos por Carl Jung. Mas afinal, o que isso tem haver com a educação ?

A principal função da escola, em opinião própria, seria a individualização do aluno perante a sociedade, criando assim uma mediação entre a criança que ainda se contenta, psicologicamente, de símbolos que criou em vínculos de pessoas próximas, como pai, mãe, madrasta, etc, a deixar tudo isso como uma fase que já tenha sido ultrapassada, e a criar laços firmes com a sociedade. A escola, em suma, prepara a criança para o convívio social.
É obrigação da escola transmitir cultura, saber, conhecer, no geral, "humanizar" aquele pequeno individuo, para que possa aceitar e ser aceito nas condições gerais que, no futuro, uma socialização necessária o obrigará.

Logo, a criança vai deixando de lado a imitação que exerce de adultos próximos, e vai, com a ajuda do instituto de ensino, criando uma autonomia própria, autonomia essa que vira a ser a base de sua atitude como cidadão.
Isso coloca a escola no patamar de principal instituição social que os indivíduos tendem a participar. É com a ajuda dela que nos tornamos e reafirmamos como humanos, desenvolvendo as capacidades e intuitos que nos são impostos assim que nascemos.

Mas se a escola é a principal (e, quando não se tem uma base familiar preparada para lidar com esse tipo de situação, talvez a única) mediadora entre a criança e a sociedade que lhe espera, por que a escola age numa realidade paralela ao que a criança encontra dos portões pra fora ?
Digo, a realidade da escola, que deveria ser preparatória para a realidade social, e no mesmo contexto, pessoal, acaba se tornando um desvio, que tenta, desesperadamente, fechar os olhos dos pequenos indivíduos para a realidade em que, em breve, estarão adentrando. Isso gera um desvio de realidade, onde a escola, ao invés de levar seus alunos a participar ativamente de um contexto social, se tornou nada mais que um paradoxo: Uma instituição social que se enxerga completamente fora dos padrões sociais. Nesse ponto padrão, a utopia do erro está formada: Cria-se a ideia de que, é possível preparar o indivíduo para viver no cotidiano social, estando ele completamente isolado desse cotidiano padrão.

Logo, a prisão em que os alunos se sentem, acaba sendo esclarecida: O plano educacional abafa a realidade social, criando regras e preceitos educacionais muito distantes das regras e preceitos que a sociedade impõe. A tentativa é de sacrificar o quesito social para a sobrevivência do quesito institucional escolar. Os alunos se veem longe de sua individualidade, quando adentram numa escola onde se tornam iguais a cada um ali presente. Sua identidade e história fica do portão para fora. Os uniformes tornam todos iguais, e a autoridade da escola é completamente inquestionável, afogando assim, a oportunidade do aluno de criar questionamentos que não sejam dentro das matérias estudantis.

A tentativa frustrada disso tudo acaba sendo exibida como fracasso total, quando vemos a realidade social entrando na escola através de alunos que, num ato de "rebeldia", acabam exercendo e mostrando o que eles realmente são, além de um uniforme branco com o nome de um professor falecido. Algum modo de expressar a individualidade, eles encontram, e esse modo normalmente infringe regulamentos que a diretoria impõe, como uma eterna verdade absoluta.

A história se repete, o erro se repete, até sairmos do ensino fundamental. O ensino médio continua contaminado pelo mesmo desdém. O sistema educacional adquire, em cada novo aluno, um tabula rasa, para enche-los de regras e preceitos inválidos para o convívio social, que, dia mais, dia menos, eles vomitarão tudo numa explosão de rebeldia. E a guerra entre alunos x professores acontece, diariamente, até que o sistema de ensino seja concluído. E o que encontramos nessa conclusão ?
Indivíduos sem base social nenhuma, que aceitam o poder total da política, sem implicar com regras que não concordam ou fingindo não enxergar problemas que estão diante de seus olhos.
Esse retardo é bem firmado quando vemos os resultados de eleições para cargos públicos, ou o modo como se portam diante de um jogo de futebol, ou quando explodem de ignorância e restrições, e eclodem num confronto com a polícia.

Enquanto Nietzsche pregava a morte de deus, Foucault pregava a morte do homem. A morte desse homem, o conformado, o igual, o cego. Esse homem que vive sua vida inteira preso a cordas de um eterno marionete.


Gostaria de terminar com a reflexão de uma frase de Paulo Freire, que dá uma resposta obvia pra esse tipo de problema:

"Uma das condições necessárias para que nos tornemos um intelectual que não teme a mudança é a percepção e a aceitação de que não há vida na imobilidade. De que não há progresso na estagnação".



sábado, 27 de fevereiro de 2010

Destino Social




Se pararmos para nos basear na historia politico-social que regeu a humanidade desde o nosso surgimento, encontraremos várias mudanças, evoluções e revoluções que moldaram o que chamamos hoje de "ideal". Digo, As transformações políticas, éticas, educacionais e familiares nos moldaram para o plano de vida que temos agora, nossa educação, convivio familiar e, em suma, social.

Para exemplificar, mas não indo direto ao assunto da postagem, vamos pegar a base do desenvolvimento emocional do indivíduo. A Família.

A muito pouco tempo atrás, o modelo ideal de família, na nossa sociedade, era a pai-mãe-prole. Esse modelo de estrutura foi dominante na sociedade, como base para o desenvolvimento de demais linhas de raciocínios familiares, assim dizendo, classificando estruturações familiares que fogem a regra como familias desorganizadas, problematicas, etc.

Podemos ver porém que esse tipo de definição familiar não foi desenvolvida sobre pretexto ciêntifico, mas puramente moral, já que utiliza um unico modelo como espelho para outros que, se fugirem do padrão, serão considerados inadequados.

Mas não podemos negar que a consistência familiar não foi sempre assim.
Levando em conta a função social dessa instituição (veremos aqui, a família como uma instituição social), Para analizarmos o que hoje ela significa, teremos que, mais uma vez, recorrer a história:

L. H. Morgan, (1818-1881), um importante antrópologo americano, desenvolveu suas pesquisas que chegaram a conclusão que: desde a origem humana, a família passou pelas seguintes mudanças:
A família consangüinea, família punaluana, sindiásmica, patriarcal, e finalmente, a família monogâmica, que é o apoio para a estrutura que vivemos hoje. Não pretendo me aprofundar nessa evolução de consistência hoje, sendo que a família é, nessa postagem, só um exemplo.

Porém, é impossivel negar que atualmente, esse tipo de estrutura não é mais o padrão que, a alguns anos atrás, era tão visível.
Vemos famílias chefiadas por mulheres, pais separados que ainda se reúnem visando um bom desenvolvimento dos filhos, e sua convivência com os antigos/novos filhos do casal, a extensa, a homossexual, enfim, temos várias condições familiares presentes hoje na sociedade, como fruto da ética que o humano desenvolveu, que permitia, dentro do contexto social, abrir portas para essa nova visão dessa instituição.

Mas a consistente adequação a nova realidade social é fato incontestavel ? ou ainda existem pontos cegos que se estruturam em condições antigas e ultrapassadas ?

Deixamos o contexto familiar de lado para visar outro tipo de "evolução": o desenvolvimento humano-profissional.

O que a mídia social nos oferece hoje, é a idéia de que o indivíduo escolhe, a partir das aptidões que desenvolveu ao decorrer de sua vida, os próprios dons e vocações, o melhor caminho para estruturar sua ocupação. Porém, essa idéia é bem recente no contexto politico, mais precisamente, surgiu junto com a política do capital.

Antes do capitalismo, mais especificamente, na fase feudal, a oportunidade de escolha não existia. Nenhum ser humano seria recompensado por suas qualidades, seu desempenho e sua evolução pessoal. Assim sendo, filhos de servos seriam sempre servos, pré-destinados a seguir sempre a carreira submissa de seus ancestrais, e, do outro lado da moeda, os filhos de senhores seriam, sempre, senhores.
Com a chegada do capitalismo, o indivíduo liberta-se de seus laços de sangue.Agora, ele precisa vender a sua determinação e força do trabalho para sobreviver. Sua ocupação não é mais decidida "naturalmente".

Toda essa idéia, na teoria, funciona muito bem, e, apresentada dessa forma, nos passa uma (falsa ?) visualização de um mundo capitalista repleto de oportunidades, e, acima de tudo, colocando o sucesso e o fracasso da vida social do indivíduo apenas sobre o cargo dele, próprio.
Mas, voltando os olhos pra realidade que enchergamos, não apenas atrás de um monitor na estante da sala, mas na realidade que convivemos e fazemos parte: Evoluimos a nossa construção profissional, desde a era feudal ? eu só adaptamos a pré destinação aos dias atuais ?
Digo, Se a escolha de seu proprio futuro está nas mãos do indivíduo, e ele se auto qualifica, isso significa que bandidos escolhem ser bandidos, andarilhos escolhem ser andarilhos e traficantes escolhem ser traficantes ? Ou o contexto social os levam, pré-destinadamente, a esses caminhos, como unica oportunidade viável de garantir a sobrevivência ?
Analisando mais a fundo, podemos facilmente chegar a conclusão de que as regras políticas somente reconheceram o humano como capaz, como o indivíduo que tem por si só, a capacidade de crescer, porém, a política social, a sociedade em geral, oferece o espaço suficiente que essa pessoa possa vir a ocupar ? Vemos com frequência filhos de classe baixa e média baixa tendo um estimulo necessário para o seu crescimento profissional e a libertação da realidade de seus pais ? Ou assistimos calados o contrário acontecer ? a realidade social abafando grandes mentes que poderiam sugir de um nivel existencial mais baixo ?
A quem a mentira do auto-esforço engana ? Salvo algumas exeções, a sociedade ainda caracteriza filho de pobre sendo sempre pobre, e filhos de ricos, sempre ricos. Pior ainda, as pessoas com maior poder aquisitivo estar sob o poder das leis, da legislação e da própria política.

Então eu pergunto: Desenvolvimento social é uma política de quem, e voltada pra quem ? De quem deveria ser caracterizado como cidadão responsavel por quem foi ensinado e capaz de se tornar, ou por quantos zeros ele é capaz de assinar em um cheque ?
Talvez a falsa politica do capitalismo nos leve a pensar até onde caminhamos, e quais mudanças poderiam ser feitas pra conseguir, enfim, ter uma política social realmente firmada sobre as regras da justiça.



---

Utilizei como base de alguns pontos do texto, capitulos do livro "psicologias, uma introdução ao estudo da psicologia. - BOCK A. M. B., FURTADO O., TEIXEIRA M. L. T.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O humano e a máscara social


Desde o início da presença humana no planeta, o homem, em espécie geral, vem tentando redescobrir a sí, e assim, formando um lugar melhor para a convivência dentro do social.
Com o passar das eras, o homem definiu a sociedade, e hoje, a sociedade caracteriza o homem.

Porém, com o passar do tempo, vimos uma nociva regressão. O homem passa a ser visto como meio, e não como final. Digo, O ser humano em sí, dentro do contexto social, dentro do convívio social, passa a desocupar a importância de valor absoluto, e sim apenas um meio para alcançar outros valores, que são colocados agora no patamar acima da propria humanidade. Coisas como posses, dinheiros ou qualquer outro tipo de interesse.
A vida humana passa a ter mais um valor passageiro e inabsoluto, um objeto social nas mãos dos governamentais ou do priprio capital, um jogo de interesses onde o psico-social acaba sendo corroido apenas pelo social.

Ora, vemos que as relações humanas são tão complexas e confusas, por serem, também, tão grandiosas, que os humanos, por fim, incluindo nós mesmos, blogueiros e leitores, acabamos acreditando que cumprimos todo o nosso papel humanista apenas praticando a obra pré-definida do respeito, limitando toda a relação humanitária num acordo de "não agressão", simplismente.

Logo, o amor entra em questionamento. Além do individualísmo egoísta sob máscara do respeito mútuo, o social passa a creditar o vínculo idealista de que o quesíto básico para a convivência deve ser apenas o "não-lesionamento", e ignoram que as ações humanitárias devem ser afirmadas e re-afirmadas, diariamente.

Pois então, onde, perdidos no atual modernismo social, ainda existe a forma do amor fora do contexto de metodologia ?
Ou seja, o amor na prática, e não somente em teoria e em conceitos já definidos ?

Veja bem, não digo que onde não há a existência do "amor social" não exista o convivio suportável. Pois depois da evolução da convivência co-existindo com a negligência do amor em sí, o homem desenvolveu outros meios "politicamente corretos" de se suportar, aceitar o outro, num contexto que tudo o que podemos ver é, caracterizado, a teoria de Winnicott, os falsos "self's" fingindo acreditar, ainda, numa sociedade com esperança.



*Texto do entendimento extraído do livro Humanismos e anti humanismos - introdução a antropologia filosófica, NOGARE, Pedro D.