domingo, 30 de outubro de 2011

Por que crêr.

Tem muita coisa acontecendo na minha vida. Coisas que me desanimam até pra escrever, mas eu vou tentar. Isso me faz bem. Pra começar, eu queria dizer que eu fui criado numa família cristã protestante, mas logo na pré adolescência eu cuspi tudo o que me ensinaram. Eu me tornei ateu. Por que eu não via deus num mundo onde há guerras, destruição, fome, preconceito. Eu não via sentido nuns livros arcaicos que se contradiziam. Eu não via credibilidade na teoria da salvação. Eu não via espaço pra fantasia num mundo real. Eu contemplava a natureza e não via deus. Eu via evolução, eu via progresso. Mas, principalmente, eu não via senso de justiça no julgamento divino. E isso era o que mais me incomodava. Se ele existisse, para ser salvo, eu devia viver de acordo com as regras dele, então eu seria salvo. Pra quê? Pra continuar vivendo de acordo com as regras dele, só que em um "paraíso", que pra mim, não passava de apelação intencional de tudo o que o ser humano sonhador sempre desejou. A filosofia cristã é bonita. Eu sonho em um dia abraçar meu tio, que já se foi. Eu sonho em um dia ver meu avô e olhar nos olhos dele e perceber que ele não sente dor. Eu tenho minhas vontades de viver num mundo onde eu não precise me trancar pra me proteger. E não sou só eu. São desejos comuns pra todos nós. A felicidade, a paz. E é isso o que o cristianismo propõe. E pra mim, era questão de marketing. Muito tem planejado, ao longo dos séculos, pra manipular a mentalidade e a genialidade do povo, fazer morrer nossa capacidade natural do questionamento e da evolução.
Até hoje, aceitar Deus é algo difícil. Mas eu aceitei. Aceitei por que vi o ateísmo se propagando de forma errada, assim como ele chegou até mim. Da mesma forma que aconteceu durante toda a história da existência humana, principalmente, devo citar, nas décadas passadas, onde os valores e ideais humanos passaram por uma evolução significativa e nos abriu os olhos para uma realidade que antes não estava ao nosso alcance. Veja bem, eu falei sobre alcance, e não sobre existência. Essa realidade sempre existiu, mas não tinha espaço para sobreviver num mundo repleto de conceitos morais abrangentes e restringentes.
Os casais sempre desejaram se separar. Mas isso não era permitido moralmente a vinte anos atrás como é hoje. Os homossexuais sempre existiram. Mas a cinquenta anos atrás, declarar-se um era um escândalo que poderia gerar (e gerava) escárnio e antipatia social. Declarar-se como homossexual, terminar um casamento por um motivo "fútil" ou até mesmo ir contra os preceitos "divinos" que a igreja ensinava era assinar e registrar sua stigma perante a sociedade. Assim, vivíamos reprimidos, com medo de nossos próprios impulsos, desejos, e como eles seriam vistos pela massa social.
Como eu disse, com o tempo, esses fatores sociais predominantes foram sendo abolidos, e a aceitação mútua do ser humano como livre para realizar suas escolhas passou a ser o novo bordão da contemporaneidade. Hoje, aberração é você não aceitar um homossexual, inclusive aos olhos da lei. Impensável é manter um casamento onde não haja felicidade. Os tempos mudaram. E a religião mudou. Não é sua obrigação seguir as crenças de sua família. Você não precisa mais acatar ordens de um padre. Você se tornou livre para crer ou não em uma força superior, da forma que quiser. A liberdade tomou proporções dominantes na razão social. Agora, permitam-me fazer uma analogia: Quando eu era criança, eu desejei muito um brinquedo. Um Buzz Lightyear que tinha os mesmos movimentos e acessórios que o personagem do filme Toy Story, da Pixar Studios. Eu ia para o shopping e ficava ali, com a caixa do boneco nas mãos, emocionado. Eu o desejava. Mas era muito, muito caro. E meus pais não tinham tanto dinheiro pra gastar com um boneco pra uma criança. Não vem ao caso como, mas depois de algum tempo, muito desejo e muito esforço depois, eu consegui compra-lo. A primeira sensação ao tira-lo da embalagem foi o cuidado: Posso quebra-lo, e ele é importante demais para mim. Depois, veio a realidade: "Ele é meu! Finalmente, ele é meu!" e aproveitei ao máximo, levava-o para todos os lugares, colocava-o em todas as brincadeiras, exibia-o para todos os meus amigos. Mas o boneco era sofisticado demais, pesado demais, não podia ir na água por causa de seu mecanismo elétrico, nem na terra, pelo mesmo motivo. Não podia bate-lo com força, e seus movimentos dos membros era limitado. Não era agradável. Eu não o valorizava por gosto, mas por necessidade. Depois de tanto esforço para conseguir, eu precisava fazer-me acreditar que aquilo havia valido a pena, que eu estava realmente sobre o domínio dele.
A sociedade tem feito a mesma coisa com suas conquistas libertárias. A causa homossexual nunca foi tão defendida, mas mesmo assim, o preconceito existe, e existe numa escala consideravelmente alta. Todo ano, milhares de homossexuais e simpatizantes se reúnem para comemorar a liberdade e hostilizar o preconceito. A lógica dessa mega reunião seria a realização de projetos sociais em prol da aceitação mútua do homossexualismo como parte inerente da humanidade de seus representantes, natural. Realizações de conscientização de que o homossexual é tão humano e tão competente quanto qualquer outro, e que, por isso, devem ter todos os direitos que temos: O de ser como são, de realizar o que desejam, de amar, procriar, construir lares de sua forma. Com o tempo, a ideia seria difundida de forma clara e objetiva. Mas não é isso o que acontece nos mega eventos homossexuais. O que vemos é uma banalização da sexualidade, festa, comemoração, agito, música, tudo muito alegre, mas que socialmente, não trás resultado nenhum para o público alvo que ainda não foi alcançado. A classe homossexual ainda está tirando o brinquedo da caixa. Ainda quer esfregar na cara de todo mundo que agora, o brinquedo tão desejado é deles. A ânsia pela liberdade e a cegueira pela diversão. Isso não é um julgamento, é uma análise. O mesmo acontece com o casamento. Pessoas precisam tanto provar para si próprias que agora são capazes de se separar quando quiserem, que o fazem de maneira fútil e desenfreada. Esquecemo-nos que a liberdade deve sempre vir acompanhada da responsabilidade. E os preceitos religiosos também estão na mesma situação.
Quando percebi que havia me tornado ateu pelo simples fato de poder se-lo, e ter uma necessidade imensa de alimentar em mim a credibilidade que tinha esse poder de decisão, inventei desculpas para sustentar essa ideia. Vomitar tudo o que me foi ensinado foi libertador. E irresponsável. O que precisamos não é liberdade para sermos o que desejarmos, mas ter opções de escolha e espaço para escolher a que melhor nos convém. E isso não significa, de maneira nenhuma, ser contra os preceitos tradicionais.
Foi quando eu olhei pra trás. Olhei pra trás e vi o cristianismo. E analisei-o, com meus próprios olhos. E estudei-o de uma maneira como eu ainda não havia feito, de uma maneira sincera, e não influenciada por meus pais. E procurei provas arqueológicas que sustentassem a visão bíblica dos fatos. E encontrei-as. E quando aceitei que nunca estaria a par de nenhuma verdade absoluta, cabia a mim suprir os vácuos de meus conhecimentos com fé. Fé em algo que fazia sentido para mim, e não pra minha ilusão libertária.
Como eu disse, até hoje é difícil aceitar Deus para mim. Eu ainda sou crítico demais, eu ainda sou cético demais. Mas eu tenho consciência de que eu não sou cristão por palavras. Afinal, as palavras que ouvi só me fizeram descrer. Ninguém é cristão verdadeiro somente por palavras. Você só se torna cristão verdadeiro depois de uma experiência única e pessoal com aquilo que você chama de Deus. E essa experiência sim, está dentro do conceito real de liberdade: Você não vai vive-la se não se permitir viver.
Esse texto não é um apelo religioso. É um texto de gratidão e um exercício de humildade. Quando as coisas ficam tão complexas ao ponto de eu não saber pra onde ir, é sempre bom aceitar que existe alguém maior para me dar a mão.
Obrigado, Deus, por não me fazer tão grande como eu costumo pensar ser.

2 comentários:

Fagner Fortunato disse...

Excelente o texto, Wellington. Meus parabéns! Há tempos procurava um texto tão interessante quanto este. "Ninguém é cristão verdadeiro somente por palavras." Realmente, a genuinidade cristã envolve esta experiência com Deus que você mencionou, sendo esta uma prova viva de Sua existência. E isso só pode ser obtido pela fé que, como já disse Paulo, é a prova das coisas que não se veem e o fundamento das coisas que se esperam. Pontos muito bem interligados no texto. Ótimas colocações, Wellington. :)

Vinicius Meneguitte disse...

Ao ler o excelente texto, me identifiquei bastante com os questionamentos típicos de quem foi criado em um lar cristão. De fato, a fé só é genuína quando temos as nossas próprias experiências com Deus, independente delas seguirem os "padrões" transmitidos por nossos pais ou por aqueles que conduzem as igrejas. Obviamente, há verdades bíblicas inegociáveis, e que muitas vezes são mal vistas ou mal interpretadas por aqueles que não creem nelas, mas no fim das contas, o que importa mesmo é que Deus busca um relacionamento de amor real e pessoal com cada um de nós.

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